-Sabe eu acho que no fim eu sinto falta de gostar de alguém.- Ele disse no meio de um suspiro pesado.
- Gostar de alguém quase acabou com você.- Falei sem me importar muito.
-Sim.- Ele fez uma pequena pausa.- Mas dava sentindo alguma coisa. Fazia valer a pena.
Pela primeira vez tirei os olhos da janela e o encarei. Ele estava com a aparência de uma pessoa cansada. As olheiras deixavam claro que ele não vinha dormindo direito a dias.
-Fazia valer a pena? Eu nunca te vi sofre tanto! - Falei demonstrando toda a raiva que eu sentia.- E você acha que valeu a pena?
Ele não respondeu. Mas eu sabia que ele achava. Isso era mais do que injusto, e eu queria gritar isso para o mundo. Eu o olhei tentando me lembrar de como era quando os seus olhos brilhavam a cada vez que tinha uma nova ideia para um de seus projeto, quando virava a noite sem dormir excitado com a ideia de terminar o mais rápido possível para mostrar ao mundo do que ele era capaz. E até mesmo o brilho extra que eles ganharam quando ela chegou. Mas não foi algo duradouro.
Eu nunca entendi o que Alex viu nela. Mas tinha certeza que não era o que eu via. Desde que eles se conheceram ele a amava mais e mais a cada dia, mas ela só o sugava, como uma vampira, pouco a pouco ele foi perdendo o brilho nos olhos e no sorriso. Não era mais o mesmo. Ele deixou os projetos de lado e foi perdendo o entusiasmo. Quando ela estava aqui tudo parecia bem, mas quando ia embora o deixava sem forças, visivelmente exausto.
Parei de encara-lo peguei o meu colar e segurei forte contra o peito. Matt tinha ido embora, mas nunca havia me deixado, já Lindsay havia deixado Alex antes mesmo de ir embora com aquele motoqueiro sujo.
Peguei as duas canecas e coloquei na pia, depois dei uma olhada no relógio.
-Acho melhor irmos logo. Ela odeia atrasos.
-Confesso que estou curioso para saber o que ela tem de tão importante para nos dizer.
-Eu também. Mas ainda estou com medo de ir lá.
-Acho que ela não vai te bater. -Ele respondeu com um meio sorriso.
-Eu sei que não. Mas na verdade estou com medo das memórias. -Ou dos sonhos que eu vinha tendo. Todos envolviam a casa e logo depois lugares e pessoas estranhas. Mas eu não havia contado nada ninguém. Esperava que fossem só sonhos...-Eu não vou lá desde o acidente.
-Se isso for te acalmar eu também confesso que estou com medo.
Eu sorri.
Nós saímos do apartamento trancando a porta e descemos ate a rua. Uma rajada de vento me atingiu assim que pisei no asfalto da calçada. Uma tempestade se formava bem em cima das nossas cabeças. Eu sempre gostei do jeito que o tempo fica antes da chuva cair, o ar úmido, e a brisa meio quente. Mas fiquei tensa naquela hora. O clima não deveria estar assim.
-Acho melhor nós irmos mais rápido, parece que vai cair uma chuva daquelas... -Comentou Alex observando o céu também.
Passei a mão no colar e puxei o casaco para mais perto antes de começar a andar.
Matt sempre adorou andar por ai. Ele fazia disso um exercício diário, por que achava produtivo ver as pessoas, imaginar como elas agiam e o que pensavam. E eu sempre amei suas observações. Aqueles olhos escuros, quase sempre pretos, conseguiam ver um mundo de um jeito que eu sempre quis ver.
Alex se parecia muito com Matias. Os mesmo cabelos castanhos, o mesmo nariz levemente empinado, os mesmos lábios finos e avermelhados, o mesmo rosto quadrado...Mas os olhos de Matt era escuros. Escuros e profundos. Como um túnel sem fim.
Passamos pela ponte da rua norte e atravessamos o pequeno parque que havia ali. E continuamos em ritmo acelerado até chegarmos na rua velha. As casas pertenciam a famílias ricas ou que estavam ali gerações. Cada uma tinha uma riqueza de detalhes impressionante. Continuamos andando com passos firmes até a ultima casa da rua.
Era uma casa grande, e sem cor, que um dia era de tirar o fôlego, mas agora só dava medo. Olhei para Alex e ele olhou para mim. Nós subimos os degraus juntos, mas foi ele que bateu na porta.
Assim que ela abriu a porta e nos viu, seu olhar amoleceu um pouco, mas antes que as lagrimas viessem ele endureceu de novo. Ela usava um vestido escuro com um sobretudo branco por cima. Seus cabelos haviam ficado mais brancos desde do nosso último encontro, mas ainda estavam perfeitamente arrumados.
-Olá mamãe.- Disse Alex.- Quanto tempo, não?
-Entrem!- Ela pediu em tom baixo.
Nos obedecemos.
O lugar parecia mais abandonado por dentro. Não havia nada fora do lugar, mas tudo estava empoeirado. Nós sentamos no sofá. Enquanto ela se certificava que tudo estava devidamente fechado.
-O que aconteceu com esse lugar mamãe?-Alex perguntou.- Achei que você estava se dedicado em tempo integral á ela.
-Não é hora de ser criança Alexander. Não temos tempo para isso.
-Quando foi que a senhora teve tempo para nós?
-Eu não estou brincando. Nunca chamaria você e Elisabeth aqui se não fosse importante.
-Então por favor fale, dona Catarina.- Minha voz saiu rouca.
-Eu estava arrumado as coisas da mudança, quando...
-Mudança?- Perguntei.- E quem vai guardar a casa e o portal?
-Cansei de viver de lembranças e dor. Essa nunca foi o meu papel- Ela disse- E quando estava arrumando as coisas de Matias achei essa caixa. -Ela pegou um pequeno baú e me estendeu.
-O que é?- Perguntou Alex
-Eu não sei. É para Elisabeth.- Ela suspirou. Estava tentando ser forte. Eu sabia. -Mas preciso que terminem de tirar as coisas de Matias do quarto e do sótão.